Quando o terapeuta precisa fazer menos — e estar mais presente
- atendepsicoterapia
- 12 de mar.
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Tenho estudado sobre um tema que aparece com frequência entre profissionais que trabalham com cuidado: a sobrecarga emocional. Muitos psicólogos, terapeutas e profissionais da saúde mental relatam cansaço intenso, sensação de insuficiência e dificuldade de sustentar o trabalho clínico ao longo do tempo.
Frequentemente explicamos esse desgaste pelo excesso de demandas. Mas existe outro fator, menos visível, que também contribui para esse esgotamento: a maneira como fomos formados para exercer o cuidado. Mais do que discutir apenas o cansaço profissional, vale questionar um paradigma que atravessa a formação clínica: a centralidade do “fazer” em detrimento do “ser”.
Durante a formação em psicologia e psicoterapia, grande parte do aprendizado está voltada para habilidades técnicas. Aprendemos a: estruturar sessões, identificar sintomas, formular hipóteses clínicas, escolher intervenções, planejar estratégias terapêuticas, avaliar resultados do processo, etc. Esse conhecimento é essencial. A literatura científica mostra claramente que métodos e técnicas têm valor real no tratamento psicológico. O problema surge quando, pouco a pouco, passamos a acreditar que o valor do nosso trabalho depende principalmente da nossa capacidade de saber o que fazer o tempo todo. Quando isso acontece, um elemento fundamental começa a perder espaço: a presença do terapeuta na relação terapêutica.
Se a prática clínica se transforma apenas em uma sequência de intervenções, tarefas e técnicas, corre-se o risco de esquecer que o fator humano, o vínculo, a autenticidade e a segurança relacional é um dos pilares da psicoterapia. Estar plenamente presente com um cliente significa trazer todo o seu ser para o encontro clínico: corpo, emoções, atenção e disponibilidade relacional. Não se trata apenas do que o terapeuta faz na sessão, mas de como ele se relaciona com o paciente naquele momento.
Na vida cotidiana, costumamos operar principalmente no chamado modo fazer. Esse modo está associado à produtividade e à resolução de problemas. Ele envolve planejamento, tomada de decisões, execução de tarefas e busca de resultados. É um funcionamento necessário e sem ele muitas coisas simplesmente não aconteceriam. Contudo, quando toda a nossa experiência passa a ser guiada exclusivamente por esse modo de funcionamento, existe o risco de viver constantemente em estado de desempenho, como se a vida fosse uma sequência de metas a cumprir.
Na perspectiva do mindfulness, existe também o modo ser. Nesse estado, não estamos focados apenas em resolver ou produzir algo. Em vez disso, nos abrimos para vivenciar a experiência presente com consciência e sensibilidade. O modo ser envolve perceber o corpo, notar os pensamentos que surgem, reconhecer emoções e observar a qualidade da própria atenção. Não significa passividade, mas sim presença consciente no que está acontecendo.
Talvez um dos grandes desafios da vida e também da prática clínica seja justamente esse: não abandonar o fazer, mas permitir que ele surja a partir do ser.
Grande parte dos cursos de psicologia oferece uma formação sólida em teoria, psicopatologia, diagnóstico e técnicas de intervenção. No entanto, habilidades igualmente essenciais para o trabalho clínico nem sempre recebem a mesma atenção.
Entre elas estão: escuta profunda, capacidade de sustentar o silêncio em sessão, tolerância ao não saber, consciência da própria reatividade emocional, regulação do corpo diante do sofrimento do outro e confiança no processo terapêutico.
Quando essas dimensões não são desenvolvidas, alguns elementos naturais da psicoterapia podem ser interpretados de forma equivocada. O silêncio pode parecer falta de intervenção. A escuta pode ser confundida com passividade. E o não saber pode ser vivido como sinal de incompetência. Nesse cenário, surge uma pressão constante para fazer algo rapidamente, como se cada momento da sessão precisasse gerar uma intervenção visível.
Outro efeito desse paradigma é a urgência em produzir resultados rápidos. Quando o foco está apenas na resolução do problema, corre-se o risco de comprometer elementos essenciais do processo terapêutico, como: qualidade da escuta, acolhimento emocional e construção de segurança relacional.
Ou seja: o que acontece na relação entre terapeuta e paciente não é apenas o contexto onde as técnicas são aplicadas — é parte ativa da mudança psicológica.
Existe uma visão equivocada muitas vezes reforçada por estereótipos sobre psicoterapia de que escutar e sustentar silêncio seria algo passivo. Mas, na realidade, muita coisa acontece durante uma sessão, tanto no corpo quanto na mente do paciente. Quando o terapeuta está regulado, disponível e genuinamente presente, algo se organiza no campo relacional. A escuta se aprofunda. A sensação de segurança aumenta. O sistema nervoso encontra mais espaço para sair de estados de defesa. Isso permite que experiências difíceis sejam sentidas, simbolizadas e elaboradas. Por esse motivo, a presença terapêutica não é apenas um pano de fundo da sessão. Ela também é uma forma de intervenção clínica. Técnicas e estratégias continuam sendo importantes. Mas, sem um campo relacional suficientemente seguro e humano, até mesmo boas intervenções podem perder força.
Existe ainda outro aspecto importante nessa reflexão: a autenticidade do terapeuta. Na prática clínica isso significa que certas qualidades não podem ser apenas ensinadas teoricamente. Elas precisam ser cultivadas na experiência pessoal do terapeuta.
Não basta explicar mindfulness — é preciso praticar atenção plena. Não basta falar sobre compaixão — é preciso desenvolvê-la consigo mesmo. Não basta defender a importância da escuta — é necessário saber habitá-la.
Esse processo envolve não apenas competência técnica, mas também maturidade pessoal e responsabilidade ética.
Um exercício simples antes da próxima sessão
Antes de iniciar seu próximo atendimento, experimente fazer uma pequena pausa.
Observe seu corpo por alguns instantes. Perceba a respiração. Solte tensões e expectativas.
Permita-se chegar ao encontro com mais presença e disponibilidade.
A psicoterapia não acontece apenas nas técnicas que aplicamos.
Ela também acontece na qualidade da presença que oferecemos.
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